Como a tecnologia está presente nas eleições presidenciais dos EUA?

Com a proximidade das eleições presidenciais nos Estados Unidos, muitos debates reverberam aqui no Brasil: sejam as pautas políticas dos candidatos, ou as propostas relativas à política externa e regulação econômica. Para nós, profissionais e entusiastas de tecnologia, no entanto, existem movimentos massivos questionando e reposicionando novas ferramentas e processos digitais na política.  

O fortalecimento de áreas de dados, tanto no setor público, quanto no privado, implica em novas articulações de campanha que envolvam um entendimento maior do eleitorado, mapeamento de oposição, análises de sentimento e pesquisas de intenção de voto cada vez mais assertivas. A tecnologia tem transformado nossa participação cidadã de formas profundas, desde a forma como a opinião pública se organiza nas redes sociais, até no fortalecimento de campanhas separatistas e perseguições políticas.  

Nesse artigo, procurei argumentar de que forma a tecnologia tem se feito presente de diferentes formas no processo eleitoral atual dos EUA e o que podemos esperar desse movimento em direção a transformação digital na política. Vem comigo!  

Um breve contexto da caminhada até aqui: como a tecnologia tem atuado em processos eleitorais?  

Desde 2016, os debates sobre os impactos da tecnologia no processo e resultados eleitorais se intensificaram. Principalmente através das redes sociais, os debates políticos, construções de oposição e até financiamentos de campanha ganharam uma cara nova.  

As redes sociais promoveram um espaço mais aberto, livre e democrático para que candidatos, partidos e eleitos se pronunciassem. Os antigos veículos de mídia – o rádio e a televisão – passaram por processos de regulamentação, baseado em legendas eleitorais, no caso do Brasil, e em tempos delimitados de participação por candidato, no caso dos EUA.  

Em 2016, a hipótese máxima sobre as redes sociais nos processos eleitorais era de que elas atuavam como ágoras contemporâneas, permitindo opiniões descontroladas, não-censuradas e irrefreáveis. Bom, se você leu nosso post sobre o documentário “O Dilema das Redes Sociais”, você sabe que isso não é bem verdade, mas o hype democrático das mídias sociais foi bom enquanto durou.  

Outra crise vivida com relação aos processos eleitorais, está relacionada com as pesquisas de intenção de voto – que, nas últimas eleições nas Américas, passaram por um crescente descrédito: a forma de coletar, estratificar e analisar as amostras precisa ser evoluída, de modo a acompanhar a complexidade que os dados demográficos eleitorais ganharam nos últimos anos. Nesse aspecto, as redes sociais permitiram um mecanismo de rastreamento, através de cookies, Big Data e analytics, que ajuda as campanhas a se tornarem mais eficientes e inteligentes.  

No entanto, um elemento central e incorruptível de qualquer eleição e, principalmente no caso dos EUA, tem sido revogado pela extensão da tecnologia: a confiança. Ainda que seja possível a criação de ambientes, seja de registro de eleitores, ou urnas eletrônicas equipadas com sistemas de blockchain, ou de transmissão de votos das zonas eleitorais em tempo real e, até mesmo, conduções de campanhas inteiramente digitais, o aspecto da segurança e da integridade de dados é sempre levantado.  

A confiança no resultado das eleições envolve um processo de confiança nas instituições democráticas e nas ferramentas utilizadas para contagem de votos. Bill Sweeney, Presidente do IFES, identificou dois pontos críticos na utilização de processos 100% automatizados nas eleições: “porque o eleitorado confiaria no resultado das eleições?” e, “os políticos irão aceitar o resultado apresentado?”. Na prática, analisando as últimas eleições das Américas, o número de pedidos de recontagem de votos e contestações públicas do processo eleitoral aumentou expressivamente.  

Isto porque, associado ao movimento de crescente das Fake News, a opinião pública se torna mais suscetível a direcionamentos voláteis, muito relacionados ao nível de complexidade política do país e de seu ambiente cultural. A vocalização expressiva da sociedade civil nos canais digitais acabou por construir um ambiente onde partidos políticos, organizações não-governamentais e departamentos do governo conseguem se articular de forma mais visível e escalável. Mas, também, sujeito ao impulsionamento dos algoritmos das redes – que acabam por formar clãs de opinião única.  

Uma discussão recente e importante é se existem diferenças categóricas no uso da tecnologia enquanto consumidor e enquanto cidadão. Se, numa esfera de consumo,   

Polarização, desconfiança e tecnologia: as eleições de 2020 nos Estados Unidos 

No que diz respeito às redes sociais, desde as eleições de 2016, o Facebook e o Twitter têm recebido regulações relativas a campanhas eleitorais, visando tornar o processo mais seguro e à prova de fraudes.  

Desde que foi usado, em 2016, para tentativas de manipulação de voto, o Facebook tem aumentado seus esforços para evitar falhas de segurança, hackers e demais mecanismos de enviesamento de dados dos eleitores e/ou processos eleitorais em curso.  

Há alguns dias, o Facebook disse ter rejeitado mais de USD 2,2 milhões em propagandas que quebravam as regras políticas de campanha estadunidenses. Além disso, a empresa fechou parcerias com consultorias de todo o mundo, especializadas em verificação de informação.  

Em termos de novas tecnologias relacionadas ao processo eleitoral em si, como ferramentas de engajamento do eleitorado e sistemas de voto baseados em criptografias de ponta-a-ponta, os EUA se veem imerso e dividido num debate com relação à segurança, abrangência e inclusão dessas novas possibilidades.  

Ainda que a eleição presidencial de 2020 nos EUA esteja sendo a mais direcionada em tecnologia nos últimos anos, alguns movimentos como a utilização de blockchain para estratégias antifraude e segurança nas urnas eletrônicas, emergem com bastante desconfiança, sendo aplicado, somente, em pequenos distritos dos EUA, como um projeto-piloto.   

O candidato independente às eleições presidenciais de 2020 nos EUA, Brock Pierce, centrou toda sua campanha no papel da inovação tecnológica na resolução de problemas e para assegurar que os EUA mantenham seu lugar enquanto vanguarda de modernização e desenvolvimento entre as maiores indústrias do mundo.  

A defesa de Pierce pela tecnologia de blockchain, perpassa o argumento: “blockchain é basicamente uma base dados e essa base de dados é blindada contra qualquer tipo de duplicadas, significando que ela não pode ser violada e que só é possível que se tenha uma versão dela, portanto, quando falamos de sistemas de voto, o blockchain é perfeitamente possível”.   

Ainda, segundo Pierce, o sistema eleitoral americano continua tentando usar soluções do século XX para problemas do século XXI – através da tecnologia de blockchain, a votação – que nos EUA é facultativa – seria mais acessível e uma maior acessibilidade aumentaria o engajamento.  

Por mais que o argumento de Pierce em direção à tecnologia de blockchain e a possibilidade de voto pelo celular seja extremamente forte e atual – considerando os avanços da tecnologia, desconfiança nas instituições políticas, seus processos, ordenamentos e regulamentos, acaba por reforçar o viés político em quaisquer colocações tecnológicas. É por isso, entre outras coisas, que se torna necessária uma separação entre a presença digital consumidora e a cidadã: dentro do espaço de cidadania existem vetores que não são contemplados pelo mercado em sua totalidade.  

O fato de Pierce ser um candidato independente e ser o candidato mais inclinado a transformações tecnológicas no cenário político também sinaliza que a política tradicional ainda se mantém e se reforça por meios tradicionais – Trump e Biden não possuem frentes expressivas em defesa da mudança e/ou transformação digital do sistema eleitoral estadunidense.  

Mas uma coisa é certa: as pressões para modernização do sistema eleitoral dos EUA só irão aumentar nos próximos anos, conforme possibilidades mais eficientes e acessíveis surgem no cenário tech.  

Curtiu o conteúdo? Tem ideias sobre como a tecnologia pode mudar os processos da sua empresa? Fale aqui com um de nossos consultores!  

Por Amanda Ramalho, Business Intelligence na SGA.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *